"Diz como os ministros devem trabalhar no julgamento do chamado “mensalão”, um processo com 38 réus e, portanto, 38 advogados de defesa, além do Ministério Público.
“No máximo, 20 dias (corridos) de julgamento”. “Temos que começar na segunda de manhã e terminar sexta à tarde”.
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"E é curioso que, num tribunal que luta para colocar em dia sua pauta de julgamentos – agora mesmo se resolveu um caso que se arrastava desde 1953 – se queira abandonar toda a prestação jurisdicional que compete ao STF – mandados de segurança, habeas corpos, etc, além de todos os demais julgamentos – para atender a uma pressão política. "

O ministro Cesar Peluso tem o direito de pensar como quiser e votar, sempre, de acordo com sua consciência no STF.
Mas não lhe fica bem, pouco antes de sua saída da presidência do
Supremo, e às vésperas de sua aposentadoria compulsória, dizer como seus
pares devam se portar.
O que ele fez ontem, atacando o ministro Joaquim Barbosa e a ministra
Cármem Lúcia, do Conselho Nacional de Justiça, é algo de impensável
para um magistrado.
E o que fez com a presidenta Dilma Rousseff, ao dizer que o Executivo
era autoritário, imperial e que “não era republicano” é espantoso,
quando parte do chefe de um dos poderes da República.
A impressão que fica é a de que Peluso guarda um insuperável
ressentimento da negativa de Dilma de promover um aumento nas
remunerações do Judiciário, a começar pelos ministros, o que
desencadearia uma onda de reajustes, a começar pelo Legislativo.
Tudo repercutiu muito mal, embora os ofendidos pelo Dr. Peluso,
sensatamente, tenham moderado a resposta. O máximo foi o “ele está se
achando” com que Joaquim Barbosa comentou o episódio.
Porém, não satisfeito, o ministro Peluso volta á carga hoje, em outra entrevista, ao Valor.
Diz como os ministros devem trabalhar no julgamento do chamado
“mensalão”, um processo com 38 réus e, portanto, 38 advogados de
defesa, além do Ministério Público.
“No máximo, 20 dias (corridos) de julgamento”. “Temos que começar na segunda de manhã e terminar sexta à tarde”.
Mas, mero detalhe: o Dr. Peluso já não é mais, desde hoje, presidente
do STF e, portanto, não lhe cade definir a dinâmica do julgamento.
E é curioso que, num tribunal que luta para colocar em dia sua pauta
de julgamentos – agora mesmo se resolveu um caso que se arrastava desde
1953 – se queira abandonar toda a prestação jurisdicional que compete ao
STF – mandados de segurança, habeas corpos, etc, além de todos os
demais julgamentos – para atender a uma pressão política.
Porque é simplesmente falsa a alegação que se vem usando na mídia de
que haveria prescrição das penas eventualmente impostas aos acusados.
Hoje, em O Globo, o advogado criminalista renato de Moraes, no artigo
“O mito da prescrição” mostra que é absolutamente falsa a história de
que as penas possíveis prescreverão nos próximos meses.
Os alegados crimes de corrupção – se não forem desqualificados pelo
tribunal – prescrevem em 2023. A única possibilidade de pena por
formação de quadrilha ainda não prescrita só o será em setembro de 2015.
Não é essa a raz~ão das pressões sobre – e partidas de dentro dele,
também – para apressar um julgamento que, sem dúvida, iria e irá
acontecer em prazo breve, dependendo dos votos do relator e do revisor.
Mas isso não basta para alguns: tem de ser sumário, apenas para
constar. O Supremo tem de curvar-se a tarefa de, simplesmente,
homologar, o que o Tribunal da Mídia decidiu.
Felizmente, a começar do Ministro Ayres Brito, o novo presidente,
parece haver resistência a usar o Supremo como praça de linchamento.
PS. Depois de escrito o post, vejo que, segundo o Estadão, Peluso deixa STF sem tradicional homenagem. Como se vê, existem maneiras mais sutis e não menos eloquentes de mandar recados.
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