O primeiro é Strawberry Fields Forever do album Magical Mistery Tour de 1967. Com essa música Lennon imortalizou um orfanato de nome Strawberry Field em Liverpoool proximo a Penny Lane. Me lembrei muito dessa música no dia da morte de John. Para mim naqueles dias essa música soava como um convite do próprio John para que o seguissemos numa viagem psicodelica e sem nenhum sentido. Como sem sentido foi o assassinato dele.
O segundo é Tomorrow Never Knows, e que faz parte do Revolver. Representa um avanço muito rápido da linha musical que os genios pretendiam seguir e que foi iniciada em Rubber Soul apenas oito meses antes. Alguns trechos dessa música foram tirados do Livro tibetano dos mortos e foi um dos experimentos de mais sucesso naquela época. Tanto a música como a letra - um trecho da música diz: "listen the colours of your dreams - ouça as cores de seus sonhos " antecipam o surgimento do psicodelismo. O titulo da música é de Ringo mas não aparece na letra e o solo de guitarra foi gravado de trás pra frente.
Fernando Pessoa nos versos de O Guardador de Rebanhos desperta (ao menos em mim despertou) uma visão pura do Menino Jesus, que nos leva a desejar que de fato seja assim, tão simples, tão singelo mas ao mesmo tempo tão santo.
Quisera minha vida desse jeito. Longe das complicações impostas pelos intermediários que se intrometem em nossos desejos sem que peçamos, e que só conseguem nos afastar do que poderia ser a mais doce das amizade.
E por falar em complicações é o mesmo Fernando Pessoa que em outro verso, chamado Liberdade nos faz visualizar um mundo sem obrigações, sem nada pra fazer, e mais uma vez fala em Jesus Cristo de uma maneira que contradiz com muita sabedoria os tais intermediários que insistem em nos ensinar fé!
Fiquem em paz
Jonas
O Guardador de Rebanhos
Num meio dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia
Vi Jesus Cristo descer à terra,
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.
Tinha fugido do céu,
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras,
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas -
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!
Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três,
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz no braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras nos burros,
Rouba as frutas dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.
A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas,
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.
Diz-me muito mal de Deus,
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia,
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -
"Se é que as criou, do que duvido" -
"Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
mas os seres não cantam nada,
se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres".
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.
..........................................................................
Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.
E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.
A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.
A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos a dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.
Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.
Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales,
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.
Depois ele adormece e eu deito-o
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.
Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos,
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
.................................................................................
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu no colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
....................................................................................
Esta é a história do meu Menino Jesus,
Por que razão que se perceba
Não há de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?
Liberdade
Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto melhor é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca... Fernando Pessoa
Busco uma espelho que não me reflita.
Pra que tanta iluminação?
Eu quero o escuro
O silencio. Quero o meu sonho.
De onde vem todo o entendimento?
E quem precisa dele?
Em que franja do tempo eu me perdi?
Eu não devia estar aqui.
Eu não devia ter chegado até aqui.
Devia ter sido um andarilho.
Me livrar desse travo amargo
Sentir a lingua suave
Meus cativos, meu cativeiro
Apenas por seus olhos, apenas por seus amores
Eu me rendo...
Todos nós recebemos diariamente e-mails de pessoas conhecidas ou não com diversas mensagens, correntes, conselhos, etc... Alguns até que são bacanas outros nem compensa serem abertos.
Um dia recebi um cujo titulo referia-se aos amigos ou coisa assim, fiquei curioso e abri.
No texto estava dito que o bom mesmo eram os vários, centenas sei lá, de amigos virtuais que o remetente tinha. E que esses amigos eram todos iguais. E que deles recebia mensagens lindas e para eles as enviava também, não importanto idade, sexo, crenças politicas e religiosas, e que mutuamente se consolavam ou riam ou choravam a partir das mesmissimas mensagens, e ia por ai afora.
Epa! Tem algo errado aqui disse eu para os meus atentos botões. Aquele remetente e talvez outros milhares do ciberespaço está colaborando para o fim da individualidade, e não quero nem falar de criatividade, fiquemos só na massificação, e no perigoso pensamento unico.
E a respeito de alguns de voces, meus pouquissimos e pacientissimos leitores, eu sei muita coisa de outros nem tanto e de poucos nada sei, mas faço questão de trata-los como unicos, cada um de voces. Essa deve ser a razão de que quando pensei em lançar o Saúva não me passou pela cabeça manter apenas uma linha de publicações: só piadas, só cronicas, só criticas, só musicas... Pensei mesmo nessa pequena salada quase completa que é o Sauva e através dele eu tento alcançar a individualidade de voces.
E isso é muito sério. Tem momentos que eu vejo ou um ou outro de voces nos meu textos, as vezes eu imagino que uma música vai agradar algum de voces de uma maneira especial, e é assim que eu tenho feito. Já coloquei ou tirei palavras que eu imaginei serem ou não adequadas a pelo menos um de voces.
Estou dizendo um monte de obviedades é claro e me perdoem por tomar o tempo de vocês com essas ululancias oceanicas, mas na verdade é tudo um gancho para eu dizer e mostrar uma coisa.
Muitos de voces, meus raros, talvez todos, saibam que aqui de minha janela eu avisto o sol nascendo. E tenho feito uma coleção de fotos, eu fotografo quase todos os dias, por que cada amanhecer que chega me parece mais bonito que o anterior, a emoção vem inevitável.
E olhando algumas dessas fotos - coisa que eu peço que voces façam também agora no video que montei e está ai embaixo- percebe-se que apesar de ser a mesma paisagem, apesar de ser o mesmo sol, apesar de ser a mesma hora, cada amanhecer tem beleza própria, tem cor propria e por que não? cada um me inspira uma oração diferente.
Cada foto dessas pode ser um de voces. Pois é assim que voces são, cada um com luz própria, cada um com sua beleza única, e cada um a me inspirar algo diferente todos os dias.
E peço que continuemos assim, unicos e irrepetiveis, personalizados a fim de que não seja perdida a capacidade cada um de nós tem de transformar o mundo, cada um a seu jeito.
No video a musica é Bridge Over Troubled Water composta por Paul Simon e um dos maiores sucessos da dupla Simon Garfunkel e é também um verdadeiro hino a amizade.
Aqui ela é cantada por Johnny Cash que gravou-a em dueto com Fiona Apple, sendo incluída no álbum American IV: The Man Comes Around (2002).
De tuas horas que eu seja apenas um segundo.
Do teu tempo quero ser o fim.
Quero ser o fundo da garrafa vazia,
a tua dormencia.
Quero ser teu sono sem sonhos,
a tua ausencia.
Não quero ser teu vestido de festa,
quero ser o mais surrado.
A tua indolencia.
Das luas me basta ser a minguante.
Quero ser a noite, (pode ser escura),
que intercala teus dias.
Das tuas estações posso ser o inverno.
Quero ser a saudade do teu porto.
O horizonte do teu olhar.
As lágrimas antes do sorriso.
Quero ser teus medos.
Tuas angustias.
A tempestade que te assusta.
Quero ser tudo que passa.
O teu esquecimento.
Não quero ser a semente,
quero ser o sulco na terra.
Quero ser a sobra, o demais, a apara.
E descer do maior para o menor.
E assim pequeno, mesmo assim sem valor aparente,
continuar sendo portador de tanto amor...
Parte de vocês, meus pacientes leitores, já viu esse video. Fiquei com vontade de reparti-lo também com os que não viram.
E foi assim. Se tem uma coisa que me encanta nesse nordeste de meus Deus é o azul do céu. Em seguida vem os verdes. E só aqui, no nordeste, foi que me dei conta de como essas duas cores são tão harmonicas entre si e me fascinam demais quando colocadas uma junto da outra.
Mas é do azul que eu quero falar. Então eu montei um video que transborda de azuis, azuis que me felicitam todos os dias, e que me fazem dar tantas graças pela vida.
O vocal da musica, Bachiana nr 5 de Villa Lobos, é da soprano Amel Brahim Djelloul e o vídeo completo de sua performance pode ser visto neste endereço.
Sinto a tristeza do fim de domingo.
A tristeza das 18 horas, Ave Maria,
quando tudo está a meia-tinta, opaco.
Sinto a tristeza da chama de uma vela,
luz frágil, suscetivel à um sopro,
e que tem a sua vida medida por si mesma.
A tristeza da impotencia.
Sinto a tristeza de quem não sabia que
fazia algo valioso pela ultima vez.
A tristeza da garoa ( não é nem chuva nem sol).
A tristeza de ser obrigado a sair do
quarto de um menino feliz.
Sinto a tristeza do marinheiro
cujo barco não pára no cais.
A tristeza da ausencia do vento, que é
quando as árvores se calam.
A tristeza do olhar da saudade,
de quem não vê, não ouve,
não sente.
A tristeza dos orfãos.
A tristeza da incompreensão.
Sinto a tristeza de quem é o ultimo a sair.
De quem ficou pra trás ......