Condomínio Santa Julia é o nome do prédio onde tive meu primeiro emprego, de office-boy, quando eu tinha apenas dezesseis anos. Sim eu também já tive dezesseis anos. Foi a partir desse lugar, ali na Rua Casper Líbero no centro de São Paulo, que conheci e curti o centro antigo de São Paulo. Por ali andei muito, hora trabalhando, hora aproveitando dos intervalos que a pouca carga de trabalho permitia, para descobertas do que eu ainda não chamava de tradição.
Acho que tradição é uma palavra que se incorpora ao nosso vocabulário depois que envelhecemos.
E por isso comer pastéis ou esfihas gordurosas com uma diversidade enorme de sucos, entrar e sair de tantos edifícios, andar por ruas lotadas de gente apressada, assistir filmes em cinemas com salas enormes- óoh as chanchadas, que depois viraram pornochanchadas - não eram um roteiro cultural ou uma curiosidade turística. E, além disso, as esquinas das Avenidas Ipiranga com São João, só fizeram acontecer alguma coisa em meu coração depois de Caetano Veloso compor Sampa.
Antes era apenas o cotidiano, era a vida pulsando com a simplicidade que ela sempre pulsa.
Mas não é minha intenção escrever aqui a história da cidade e daqueles quarteirões que vão da Sé até o Arouche, com suas beiradas na Consolação e na Luz.
Eu comecei a falar do Condomínio Santa Julia, por que ontem fiz parte de uma Saída Fotográfica pelo centro antigo da cidade e no trajeto dessa Saída passamos em frente ao dito Condomínio.
E minhas lembranças que já tinham começado a me agitar lá no inicio do trajeto, na Estação da Luz, a partir desse momento sacudiram o menino adormecido dentro de mim, escancarando abruptamente uma janela de imagens deliciosas que há muito tempo eu não enxergava com os olhos da alma.
E lá fomos nós. Eu e o menino. Eu andando e ele dançando. Eu me perguntando por que tanta coisa se transforma na vida, e ele só ansioso para virar a próxima esquina e rever pessoas, cores e nomes.
Eu sentindo meu coração endurecido e ele sentindo a leveza transbordante do amor.
E então deixei que o menino descascasse a camadas ressecadas que a dureza da vida sedimentou em minha alma. O que me fez experimentar uma sensação de que temos olhos na pele, pois não me lembro de ter olhado tanta coisa naqueles tempos que eu corria por aquelas ruas, mas descobri que eu as sentia, que as absorvia, mesmo distraido.
No fim do dia, cansado, eu "vi" o menino com brilho nos olhos, pleno de alegria, saciado daquilo que nem eu e nem ele sabíamos que nos fazia tanta falta.
Fiquem em paz
Jonas
Fiquem em paz
Jonas
Saida Fotografica 271111
PS O organizador dessas Saidas, projeto chamado Fotografe SP, é o Elias Gomes que tem um blog cujo endereço é esse. E acho esse trabalho prá lá de bom na medida em que estimula e permite aos fotógrafos leigos-amadores como eu, a exercitarem seu lado observador e contemplador. Se alguém quiser falar com o Elias deixa comentário no blog dele que ele responde.

Olá Jonas,
ResponderExcluirParabéns pelo belo texto, me emocionei de verdade. Quando penso em uma saída fotográfica, sempre me preocupo com tantas coisas práticas: qual roteiro?, identificação das pessoas, divulgação, segurança, etc. E acabo me dando conta somente no final do dia que estas caminhadas servem também para nos trazer lembranças e conhecimento, e com estas lembranças nos renovamos, "trazemos à tona aquele menino" que nunca foi embora, somente esperava aquele momento para brincar de novo. Que bom que meu trabalho possa mexer um pouquinho com cada participante...que bom que mexeu com você meu amigo. Um grande abraço, parabéns pelo blog e até a próxima.
Elias Gomes
Caro Elias, obrigado pela gentileza das palavras. Pode parecer desnecessario dizer isso, mas faço questão de deixar escrito mais uma vez meus cumprimentos pelo seu trabalho que, como vc mesmo diz, no principio é apenas algo burocrático. Mas que no fim pode se transformar em poesia como foi no meu caso.
ResponderExcluirGrandes abraços.
Lindo o post, as fotos, o projeto!
ResponderExcluirAbraços, amigo!
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirDepois de tantas palavras bonitas, só posso completar dizendo: Obrigado !
ResponderExcluirFoi um prazer, conhecer pessoas boas em uma cidade, onde as ninguém olham no seu rosto e muito menos nas nossas obras de arte, e não sabem da história que cada prédio, praça ruas e monumentos guardam.
Será a violência, a modernidade ou descaso ? Os paulistanos,e só tem olhos para os lançamentos da indústria eletrônica.
Por isso nós que gostamos de fotografia, temos o dever de retratar isso e mostrar, não importa se sua foto ficou escura, o que importa é seu olhar e seu ponto de vista e sensibilidade.
Um exemplo que até comentei sobre como cada um ver as coisas, e só olhar as fotos, todos no mesmo roteiro e muitos fizeram umas fotos que o outro não teve a mesma visão, isso é particular de cada um.
Obrigado Denise, por seu entusiasmo com as coisas que faço. Voce é gentil e me deixa honrado..
ResponderExcluirAbraços...
Caro Paparazzo voce tem razão. Pessoas diferentes podem fabricar celulares ou computadores identicos mas quando se trata de coisas que são vistas e "feitas" com os olhos da alma, aí sim podemos perceber a maravilhosa diversidade humana.
ResponderExcluirGrandes abraços